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05 de setembro de 2010

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Ricardo Augusto Calçado, presidente da ONG Onda Solidária,fala sobre o trabalho da ONG, nesta entrevista no programa Bem-vindo Romeiro da REDE APARECIDA.
A história de Dona Regina - Campanha de doações para comunidades atingidas pelas chuvas no Rio

Brazil Por Cristiane Assis 

Relato sobre entrega de doações na campanha solidária para vítimas das enchentes no Rio de Janeiro 

“A água estragou mesmo foi o armário e o colchão que a menina dorme. Tá tudo bem, meus filhos, não preocupa, não, que tem gente que perdeu mais lá na região da Fazenda dos Mineiros, onde minha mãe mora”, disse Dona Regina, moradora do Porto do Rosa.

A casa escura dessa mãe de quatro filhos lembrava um canteiro de obras. No espaço, que só tinha um quarto com uma cama de casal, uma cozinha com um fogão velho, geladeira usada como armário e um banheiro onde o chuveiro era apenas um cano, vive Dona Regina, 3 dos seus 4 filhos e seu marido que, como ela, estava desempregado, cansado, sem esperança e doente.

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Dona Regina e Paulo 

Fomos levados até lá por Rosa e Elesi, duas moradoras da região que desde 2004 conhecem a Onda Solidária e dedicam-se em apoiar nossas ações sociais na região. “Quando vocês chegaram eu estava chorando”, disse Regina. “Chorando e rezando pedindo algum apoio a Deus, e não é que vocês apareceram”, falava em uma mistura de choro e sorriso. “Vamos, que eu vou ajudar vocês a encontrar as famílias que mais precisam de apoio lá na Fazenda dos Mineiros”, concluiu acendendo os olhos e iniciando o movimento para deixar a própria casa precisando tanto de apoio para ajudar outros.

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Elesi, Dona Regina, Paulo e Ricardo 

Assim começou o sábado (24 de Abril) quando o grupo solidário formado por Ricardo, eu e Paulo, um jovem morador do abrigo municipal Don Helder Câmara bateu na casa de Rosa e Elesi e, depois de recrutar também Dona Regina, seguiu para a tão falada Fazenda dos Mineiros. 

A Fazenda dos Mineiros, um aglomerado de casas no meio do mangue nos assustou de cara. Ali o tráfico imperava. Dona Regina pediu licença, se aproximou dos “donos do local” e disse que era um trabalho solidário, não tínhamos nada com a policia. Autorizados a entrar e conversar com as pessoas, nos dividimos em pares e fomos de casa em casa perguntando o quanto eles haviam sido afetados pelas chuvas fortes no Rio.

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A comunidade de Porto do Rosa 

Todos tiveram água entrado em casa. Os que tinham móveis, financiados em dezenas de prestações, perderam. A água barrenta e poluída causa um estrago que eu não havia imaginado. Colchões, imprestáveis, assim como sofás, roupas, eletrodomésticos. Tudo parecia úmido, mesmo tantas semanas após as chuvas, prestes a quebrar. A proximidade do mangue nos assustava. Uma chuvinha mais forte e tudo poderia acontecer de novo.

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Moradora mostrando até onde a água chegou durante as chuvas. 

Paulo, nosso jovem solidário que integrou o Projeto Galera Solidária e também o Animare, hoje é aprendiz de pedreiro. Durante as entrevistas, oferecia soluções, dizia que essa ou aquela casa só precisava de um pouco de cimento aqui, um tijolo ali, que faria o serviço sem cobrar, que resolveria. Ficamos todos emocionados em ver tanta solidariedade nesse jovem, tanta vontade de fazer alguma coisa, de ajudar.

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Paulo e eu conversando com moradores no Porto do Rosa

Dona Regina nos levou à casa de sua mãe, muito castigada pela chuva. Lá não havia cadeiras para sentar. Todas estavam sendo usadas para levantar o armário do quarto. Na cama, uma linda menina de 14 anos dormia encolhida. Era a filha mais velha de Dona Regina que sofria com uma doença crônica e estava sentindo fortes dores naquele dia.

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A agonia de Dona Regina nos deixou aflitos. Uma agonia sufocada, que parecia não ter direito de se expressar, mas que doía. Ela contou a história da doença da filha, dos problemas nas filas dos postos de saúde, da dificuldade de encontrar ânimo. A irmã mais nova, de 12 anos, da menina fazia bordado e ajudava a manter a casa.

Em um caderninho havíamos anotado as principais carências que poderíamos atender: colchões, cestas básicas, materiais de construção, remédios para a filha de Regina. Dali fomos todos ao supermercado e para uma grande loja de móveis. As encomendas foram feitas: 18 cestas básicas, 15 colchões.

O que havíamos trazido no carro, caixas de roupas e materiais escolares foram distribuídos ali mesmo para as crianças da região.

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Apenas Regina levou direto da loja o colchão que faria a filha que mora com ela dormir em um local macio. A roupa de cama cor de rosa, escolhida com carinho, foi um sucesso e Dona Regina mais uma vez chorou.

Chorou sem conter. Como todos nós, estava cansada, já eram 20hs de um dia intenso. Não chorou pela filha doente, pelo marido desempregado, pela incapacidade de dar uma vida com mais saúde para sua família, nem pelo pai que havia falecido recentemente. Chorou porque disse ter gostado muito, estava muito feliz por ter tido a oportunidade de ajudar os outros.

 

Segunda-feira – 26/04

 

A casa da mãe de Regina foi o ponto escolhido para a entrega das cestas básicas e colchões. Na segunda-feira, 26, Ricardo e Luciano voltaram à Fazenda dos Mineiros em companhia de Dona Regina, Rosa e Elesi e distribuíram as cestas básicas e outras doações retiradas na Escola Britânica e carinhosamente entregues por jovens solidárias coordenadas por Nicole.

Os colchões ficaram para ser entregues depois, com uma lista e famílias cadastradas, pelo grupo local. A entrega foi um sucesso e estimamos que cerca de 30 famílias foram beneficiadas.

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Terça-feira – 27/04

 

O telefone toca de manhã. - “Oi, tia Cris!”.

- “Paulinho, como você está?”

- “Tia, descobri uma família vivendo em condições muito ruins aqui perto da minha escola. A mulher tem um bebe pequeno e a casa deles está muito ruim, eles não tem quarto, só um corredor. E o marido dela está desempregado. Então, chamei ele para me ajudar a fazer obras (Paulo trabalha na prefeitura do Rio de Janeiro na manutenção de locais públicos e jardins e nos finais de semana é jardineiro e pedreiro) e vou organizar para fazer a obra deles. Eles não tem nada. E eu estou sendo solidário..."

 

Depois de conversar e saber mais, desliguei o telefone com um nó na garganta e um sorriso. A solidariedade é definitivamente capaz de se espalhar como as ondas.   

 
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